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terça-feira, maio 24, 2005

Guerra de Skinheads em Barcelona (artigo publicado no El Periódico da Catalunha)

Texto retirado de um site brasileiro. O original estava em castelhano num diário Catalão de grande tiragem 'El Periódico'.

Segundo Carles Viñas, autor do livro “Skinheads em Catalunha”, recentemente publicado, na Catalunha há cerca de 1.500 cabeças raspadas, dos quais só 25% são de extrema-direita. Para Viñas, que realiza suas teses de doutorado sobre o tema, os meios de comunicação e alguns livros, “mais oportunistas que rigorosos”, tendem a exagerar as cifras criando um efeito sensacionalista. No Estado espanhol, calcula o autor que, de um total de 6.000 skinheads, a porcentagem de nazis é de 50%.
Anarco-skinheads divertindo-se, militantes do ASAP (Anarchist Skins And Punks)
Anarco-skinheads divertindo-se, militantes do ASAP (Anarchist Skins And Punks)

GUERRA DE “SKINS” EM BARCELONA (el Periódico, 01-02-2005)

DIVIDIDOS EM NAZIS E ANTIFASCISTAS, OS CABEÇAS RASPADAS MANTÊM UMA DURA LUTA

MAR VALLECILLOS

BARCELONA

Ernest é skinhead e mulato. A quem veja nele uma contradição, Ernest lhe dirá sorrindo que não acredite em tudo que a televisão diz. Que o descontentamento da sociedade para com o mundo skin é total, produzido pelo desinteresse ou pelos meios de comunicação, que costuma igualar skins com a ultradireita. Há outros cabeças raspadas de idêntica aparência que mantêm uma guerra de baixa intensidade contra os de extrema-direita e que exaltam valores totalmente opostos, embora com uma aceitação semelhante de certas formas de violência. Se autodenominam skinheads antifascistas.

Como outros cabeças raspadas antifascistas de Barcelona, Ernest conhecia o garoto que morreu há 10 de dezembro, em conseqüência da agressão de um neonazi durante as festas de Gràcia do mês de agosto passado, assim como conhecia também alguns dos que acompanhavam o autor material do ataque mortal. Do primeiro, um jovem okupa, Ernest se sentia próximo politicamente. Dos segundos, com os quais compartilham uma mesma estética e gostos musicais, se sente inimigo direto.

Com a palavra “skinheads” em letras brancas sobre o negro de sua camiseta justa, com a cabeça raspada bem rente, Ernest passa entre as mesas do bar e sabe que as pessoas o olham. Está cansado, acaba tarde seu trabalho como carteiro. Diante de uma cerveja, pontualiza que não se pode chamar de “skinhead” os cabeças raspadas nazistas, a quem os acusa de terem se apropriado de um nome e uma estética. Para os skinheads antifascistas, ser skin e de ultradireita é um contra-senso porque as origens desta subcultura estão na mestiçagem que se produziu em Londres nos anos 70, quando os imigrantes jamaicanos conviveram com a classe operária autóctone.

Mas a realidade é que se, ao cruzar pelas ruas com um cabeça raspada, alguém quiser se atrever a discernir se trata-se de um nazi ou de um antifascista, deverá esperar que ele chegue muito perto, para observar suas insígnias e símbolos, único indicador visual da ideologia. Ainda assim, a maioria das pessoas prefere mudar de calçada antes de cruzar com pessoas como Ernest ou Raül. “Imagine como me sinto se um imigrante me vê e começa a ficar nervoso, pois eu sou anti-racista”, explica Raül, de 30 anos e que se define como independentista e comunista. Certamente, aqueles que atacaram mortalmente o jovem okupa nas festas de Gràcia eram garotos e garotas com estética similar à de Ernest e Raül (máquina zero, camiseta justa, tatuagens e botas militares), mas de extrema-direita. Episódios como aquele se sucedem a cada certo tempo em Barcelona e, embora o boom do fenômeno nazi na Espanha tenha se produzido nos anos 90, peritos asseguram que estão muito longe de desaparecer, e que mais ainda se estabiliza. Do mesmo modo, o movimento skinhead anti-racista continua capitalizando boa parte do descontentamento social juvenil e mantém vivo certo espaço de ação social muito definido e na sombra.

Segundo Carles Viñas, autor do livro “Skinheads em Catalunha”, recentemente publicado, na Catalunha há cerca de 1.500 cabeças raspadas, dos quais só 25% são de extrema-direita. Para Viñas, que realiza suas teses de doutorado sobre o tema, os meios de comunicação e alguns livros, “mais oportunistas que rigorosos”, tendem a exagerar as cifras criando um efeito sensacionalista. No Estado espanhol, calcula o autor que, de um total de 6.000 skinheads, a porcentagem de nazis é de 50%.

O resto não são todos antifascistas; existe também um reduzido setor de apolíticos, aqueles que não se posicionam em nenhum dos dois lados, mas que se identificam com a música, a estética e o sentimento de irmandade que caracterizam esta subcultura urbana.

IRMANDADE RASPADA

“É muito difícil explicar o que é ser skinhead. É mostrar minha rebeldia diante do sistema e pertencer a uma grande família. Eu vou a Galícia e posso ficar na casa de pessoas às quais não conheço, mas que compartilho uma mesma música e uma mesma maneira de ver a vida”, comenta Ernest, que tem 22 anos e é cabeça raspada desde os 15. “A principio, não tinha nenhuma necessidade de definir-me politicamente: era skinhead porque gostava de certa música e certa estética. Não gostava dos nazis, mas não fazia disso uma bandeira. Depois, ao ver que podem te confundir com eles e que suas agressões não decaem, ser anti-nazi se converte em tua bandeira e tenta colocá-los em seu devido lugar”, diz baixando a voz.

Em Barcelona a cada mês se produz algum tipo de marcação entre uns e outros. Debaixo dos titulares pontuais de alguma agressão nazi, existe nas grandes cidades espanholas um dia a dia de brigas entre cabeças raspadas de um e outro símbolo. Um mundo de ajustes de contas que se desenvolve às sombras da polícia e dos meios de comunicação, pois nenhum dos dois bandos denuncia os ataques sofridos e preferem, antes, fazer justiça com as suas próprias mãos. Depois da morte de Roger, muitos skinheads antifascistas asseguram que “as coisas não ficarão assim” e que, cedo ou tarde, “alguém terá seu castigo merecido” aqueles que mataram o jovem okupa com um punho americano modificado. A manifestação da praça Sant Jaume no dia 23 passado já ia nessa direção.

Após a morte de Roger, o autor material confesso, que permanecia em liberdade enquanto sua vítima agonizava, foi encarcerado de novo na espera de julgamento.

Os skinheads antifascistas aprovam a violência só em defesa própria e, a partir daí, cada um faz sua própria definição do termo, contudo sua violência está dirigida exclusivamente ao movimento nazi: seus membros, símbolos e sedes.

Na rua Torrent de l'Olla encontra-se a única loja da Catalunha especializada em produtos do mundo skinhead antifascista, e mais um dia amanhece com suásticas pichadas na persiana e silicone no cadeado. Raül é o dono deste local que, aberto desde há um par de anos, converteu-se em um centro de reunião do mundo skinhead [Nota do Tradutor: incrivelmente, Raül é baterista de 3 bandas skinheads totalmente antifascistas: Opció K-95, Pilseners e Suburban Rebels]. “Aqui eu passo boa parte do tempo batendo um papo com pessoas iguais a mim”, comenta Albert, de apenas 16 anos. Não se barbeia ainda, mas já usa brinco na orelha e tatuagens.

A IMPORTÂNCIA DO FUTEBOL

Alguém pergunta a Raül se pode pagar um ingresso do Barça a prazo. O futebol é muito importante no mundo skinhead, ainda que provavelmente menos do que parece de fora. Os grupos de torcidas mais conhecidas de Barcelona, como Boixos Nois ou Brigadas Blanquiazules, estão hoje ligados à extrema-direita, segundo explica Viñas em seu livro. Entre os skins antifascistas há gente como Raül, aficionado pelo Barça de corpo e alma, ou como Ernest, a quem não gosta absolutamente de futebol. A Marina, skingirl de 20 anos, o futebol lhe agrada, “mas não o do dinheiro nem as grandes equipes”, diz. “O que me agrada é ir com meus amigos ver ao Sant Andreu num domingo pela manhã, com umas cervejas. Dar umas risadas e meter-nos com o porteiro rival... Não o de pagar uma dinheirama para ver gente que move milhões”. Se de volta para casa Marina e seus amigos encontram briga com algum grupo nazi, o dia lhes sai redondo.

Marina estuda e trabalha e foi a única que optou por um pseudônimo. Conta que sua mãe acha bastante ruim que ela seja skinhead. A família de Albert tampouco o compreende: “É uma confusão. Ao me verem assim, vestido e raspado, pensam que sou meio nazi. Tento explicar, mas não me escutam. Suponho que até que a televisão não lhes diga que há skinheads de esquerdas não acreditarão em mim”.

MUITA CERVEJA E MÚSICA Oi!

Nadando contra a corrente, desafiando os reflexos incondicionados dos transeuntes, os skinheads antifascistas não crescem numericamente, mas tampouco diminuem. Buscam sentimentos de pertinência grupal. Também buscam briga com seus inimigos. Entretanto, amam a música Oi!, vão ao futebol, trabalham no que podem. Consomem drogas, muita cerveja e também livros, vídeos e marcas de culto. Lutam contra conceitos genéricos e adotam consignas. Andam em grupos e a cada dia passam pelo bar com uma nova anedota a contar. Anedotas que interpretam com chaves de um universo de pólos opostos: amigos e inimigos, nazis e antifascistas, agressões e respostas, conformismo e rebeldia. O grupo ou a solidão.

Fonte: CMI Brasil / El Periódico.

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2 Comentários:

  • Skinhead não se divide em "Esquerdistas e Extrema-Direita". Não sou partidária, Não concordo com esquerdas tampouco extremas-direitas.

    Não ando com SHARPS, e sim com CARECAS DO BRASIL. Cada pessoa tem seu modo de pensar... Nazi não é careca. FRONT 88 é escória, e esse tipo de gente não deve ser considerado nem "gente".

    Se quiser, de uma olhada no meu blog para esclarecer alguns assuntos... :)

    Por Anonymous Mafe Skin, Às 1:44 da tarde  

  • Careca do Brasil não é extrema direita e o Blood and Honour é fã de Malcom X.


    (Postei anôniumo por esta estar sendo a única opção disponível.)

    Por Anonymous Anónimo, Às 6:02 da tarde  

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